quinta-feira, março 17, 2011

Quero sentir o Vazio de Ausência…

A palavra saudade é linda… linda de ler, de escrever e principalmente de se ouvir… É tão bom ouvir: tenho saudades tuas…

O povo português é o único, na sua língua, a possuir uma palavra que tenta transmitir este pensamento – um sentimento de ausência e a falta ou vazio de algo…. A palavra saudade é isso, a falta que algo que temos, tivemos ou teremos… A palavra saudade, para o português é isso, temos saudade de tudo e de todos, de quem estivemos à 5 minutos a traz ou à dias e km de distância…

A questão que no fundo coloco (como se não fosse habitual colocar questões que não lembram a ninguém, nem ao Menino Jesus!!!!!) - quando se fala de ausência, de estar longe de tudo, fisicamente –como é esse sentimento é sentido e até que ponto nós, geração do séc. XXI o sentimos!!!!!!

Estranho? Talvez, mas vejamos – com as novas tecnologias, cada vez que sentimos saudades, ausência, vazio, podemos “camuflar” esse sentimento com um penso rápido, que não faz parar a dor, mas faz estancar o sangue – podemos pegar num telefone, num teclado de computador e rapidamente estamos em contacto com o que nos faz falta, com a “marca” que imprimiu o vazio - e fazer com que a ausência se esbata, se esfume e deixe – mesmo temporariamente – de doer…

Quando temos saudades de alguém, mesmo que essa pessoa esteja na Suíça, no Kosovo ou em Angola, basta ligar o computador e falar com ela… aliás, quando estamos longe de uma pessoa fisicamente, somos capazes de falar com ela com mais regularidade – estar mais próximo… e até parece que a saudade aumenta proporcionalmente com a distancia, conjuntamente com a incerteza que a podemos ver quando quisermos… ou quando sentimos falta, ou quando está ausente…

Mas saberemos de facto o que é sentir falta, o que é sentir saudade? Saberemos o que é a ausência se alguém, o vazio que provoca porque essa pessoa está ao alcance, distância de um click, de uma chamada de um telefone, de um telemóvel - que por acaso até anda num bolso…

Sentiremos de facto saudades reais??? Ou só sentimos saudades quando alguém desaparece de vez, morre e aí não se tem como falar com ela, ouvir a sua voz, o seu riso? … Será que é por isso que cada vez é mais difícil lidar com a morte??? Porque não sentimos a ausência - ou na realidade saudades - durante toda a nossa vida???

Hoje somos habituados a não viver com a ausência… Não sabemos lidar com o vazio, não sabemos lidar com a dor de não estar com alguém… Porque nunca o tivemos de fazer… Suportar, a ausência é algo com que o ser humano não se habitua a viver…. ou se desabituou, sei lá….

O avanço das tecnologias foi, assim, uma maneira de acabar com o sentimento que só o português consegue apelidar de saudade… os telemóveis, a Internet, o telefone, fax, video-chamada só evoluiu para que cada pessoa não sentisse saudade de alguma coisa, espaço, pessoa, lugar, som… Para que cada pessoa nunca tivesse de sentir a dor da ausência… E essa dói - num doer de moer devagarinho ou até um doer bom, que enche o espírito…. E – qual é o limite para “matar” a saudade… o que mais é possível fazer para que a dor que moí devagarinho, que podemos estancar quando for demasiada – ou até pouquita?

Haverá o dia em que os cheiros e sabores também serão transmitidos pela tecnologia? Haverá o dia em que a falta do cheiro da casa da minha mãe, o cheiro do mar, o sentir um carinho da face da pessoa que gostamos, daqueles beijos mais carnudos, será suprimida por uma qualquer maquinaria electrónica que dirá ao meu cérebro que eles estão ali, que entro pela casa a dentro e cheira a alecrim, sinto o macio da pele bem cuidada, ou o quente de uma lábios ardentes????

Confesso que gosto de fechar os olhos e de pensar, imaginar esses momentos bons, de fazer com que o meu cérebro – por ordem e comando meu – imagine e eu consiga sentir no meu corpo o quente das brasas de uma fogueira ou o arrepiar de um mergulho no mar da gélido da praia pequena, e de seguida ter um abraço quentinho à espera.

Perder-se-á, aqui – graças à tecnologia – a capacidade de imaginar…imaginar se está bem, se tem o cabelo comprido, se curto, se comeu maças, ou bananas qualquer fruta em geral…. a capacidade de imaginar o cheiro do arroz doce acabado de fazer da minha avó, ou de uma rosa a desabrochar no jardim… ou o cheiro a maresia da minha terra quando vinha de viagem, o cheiro da terra molhada depois de um dia de chuva, ou até da relva cortadinha de fresco… as saudades destas coisas pequenas, fazem a imaginação disparar…

Quando eu puder sentir – via telefone – o cheiro da sopa da avó, das festas do Santo António do Castelo, da gasolina das corridas de automóveis do pai, do aconchego do casaco da minha mãe, deixarei de sentir saudades, não terei mais ausência mas também… deixarei de imaginar…

E eu não quero isso!!!!

Quero sentir Vazio de Ausência…