terça-feira, fevereiro 05, 2013

Numa forma simples ... rude até...


Porque sem dar-mos conta...  existe um momento implacável, em que devemos, cuidadosamente cortar o fio e esperar. Tal como uma máquina que transporta energia, tal como uma linha quando se cose um botão, é o remate.  

A vida é feita de linhas estreitas. Numa reacção em cadeia, de acontecimentos previsíveis, em que de vez em quando encontramos um fio solto. Pergunto, devemos puxar esse fio solto? Devemos preservar a beleza da peça que nos aquece nos dias frios e nos refresca nos dias quentes?  

Porquê puxar esse fio solto? Talvez porque é um desafio... do desconhecido. E também, porque não consigo esquecer a forma como contas uma história sem dizer nada! Basta olhar para a trama da malha e sei o que significa o desconhecido e mantém-se ao longo do tempo o mesmo espírito desafiante!

No momento que se segue... o espírito diz-me que vem o desespero, que nos conduz pela estrada às voltas com o desafio, enrolada nos fios, cheia de nós... Porque tudo é tão aparentemente fino e frágil. E de repente, após várias cambalhotas na teia chego a uma bifurcação da pergunta, nós vivemos para busca do conhecimento ou para o controle dos acontecimentos previsíveis?

Com muito cuidado então... Corto o fio e espero. Com um olho fechado a sonhar e outro aberto para a realidade...
Regressamos, recupera-mos o fôlego e deixa-mos ir... Porque o tempo é a corda entre a seta e o arco. E nós definimos o alvo.  Se há uma coisa que aprendemos com os nossos retornos de fios soltos, o tempo é tudo.

Se a vida é uma série de rotas, caminhos cheios de fios, nós estamos a alterar o nosso peso na trama. Dançamos cada vez mais, é o mesmo que dizer que estamos cada vez mais entrelaçados. E isso amedronta-me.
A semântica não funciona connosco, e da forma como ambos sentimos os nossos fios que já são novelos, acabamos por sacrificar a simplicidade de um fio.

Então, de uma forma muito simples... Rude até 
Eu só quero dizer… Que assim como tu, eu vou encontrar uma forma
De te dizer tudo... Dizendo nada!

«E ele agarrou-lhe na mão, e ela agarrou-lhe na mão, e ficaram de mãos agarradas, primeiro a olharem para as mãos, depois levantando lentamente os olhos, que por fim se encontraram, perdendo-se uns nos outros, sem já saber quem via ou era visto, os olhos ao mesmo tempo a verem e a serem vistos, nus, sem qualquer pudor, como se tudo fosse possível uma vez mais, uma última vez, sem esquecer que o que lhes estava a acontecer é impossível, quanto mais de esquecer.» 
Pedro Paixão

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